Como Gerir Certificados Antigos das Séries B e D Herdados ou Detidos

Certificados antigos herdados

Como Gerir Certificados Antigos das Séries B e D Herdados ou Detidos

Tempo de leitura: aproximadamente 14 minutos

Herdou uma pasta cheia de certificados antigos das Séries B e D? Ou talvez os tenha guardado numa gaveta há décadas, sem saber exatamente o que fazer com eles? Não está sozinho. Em 2026, milhares de portugueses — e cidadãos de outros países lusófonos — ainda detêm estes instrumentos financeiros clássicos, muitas vezes sem compreender o seu estado atual, o seu valor real ou os passos necessários para os gerir corretamente.

A boa notícia: com a orientação certa, transformar esta complexidade aparente numa estratégia financeira sólida é completamente possível. Este guia vai conduzi-lo, passo a passo, através do processo de identificação, avaliação e gestão destes certificados — seja enquanto herdeiro, titular original ou simples curioso.


Índice


1. O Que São os Certificados das Séries B e D?

Antes de agir, é fundamental compreender exatamente com o que está a lidar. Os Certificados das Séries B e D são instrumentos de dívida pública ou instrumentos de aforro emitidos em períodos históricos específicos — normalmente associados a programas de financiamento do Estado ou a entidades públicas que operavam em regimes de captação de poupança popular.

Em Portugal, por exemplo, os Certificados de Aforro passaram por diversas gerações de séries ao longo das décadas, cada uma com características próprias: taxas de juro específicas, maturidades definidas e condições de resgate particulares. As Séries B e D referem-se, habitualmente, a emissões de períodos distintos — as primeiras com características mais conservadoras, as segundas frequentemente associadas a indexações ou prémios especiais.

Características Fundamentais que Distinguem Cada Série

A Série B foi tipicamente emitida num contexto de taxas de juro mais elevadas, refletindo o ambiente económico das décadas de 1980 e início dos anos 1990. Estes certificados apresentavam estruturas de capitalização anuais e prémios crescentes para quem mantivesse o investimento por períodos prolongados.

A Série D, por outro lado, surgiu num contexto de maior estabilidade monetária pós-integração europeia, com características adaptadas à realidade do euro e taxas de referência da zona euro. Muitos certificados desta série foram emitidos entre meados dos anos 1990 e a primeira década do século XXI.

Dica importante: Não confunda a série com o estado do certificado. Um certificado antigo pode estar ativo, em prazo de resgate alargado, ou simplesmente prescrito — cada situação exige uma abordagem completamente diferente.

Por Que Razão Ainda Existem Tantos Certificados por Gerir?

Segundo estimativas do setor financeiro português, em 2025 ainda existiam mais de 800 milhões de euros em certificados de aforro antigos não resgatados ou em situação de gestão passiva. Este valor surpreendente explica-se por vários fatores: falecimento dos titulares sem comunicação prévia aos herdeiros, desconhecimento das condições de resgate, ou simplesmente a crença de que “ficam lá a render” indefinidamente.

“A maior parte das situações de certificados esquecidos não resulta de má-fé ou negligência deliberada — resulta de falta de informação no momento certo.” — Especialista em planeamento financeiro familiar, 2025

2. Como Identificar e Autenticar os Seus Certificados

Imagine esta cena: está a organizar os documentos de um familiar falecido e encontra uma série de papéis antigos, alguns amarelecidos pelo tempo, com números, carimbos e valores que não compreende imediatamente. O que faz a seguir?

A autenticação e identificação correta é o primeiro passo crítico. Precipitar-se para tentar resgatar sem confirmar a autenticidade pode resultar em frustrações, atrasos burocráticos ou até em perda de direitos.

Passo 1: Localizar os Dados Essenciais no Documento

Cada certificado físico deve conter, pelo menos, os seguintes elementos identificadores:

  • Número de certificado — único e essencial para qualquer consulta
  • Série identificada (B, D, ou outra) — geralmente em destaque no cabeçalho
  • Data de emissão — determinante para calcular juros acumulados e verificar prazos
  • Montante subscrito — o valor inicial depositado
  • Nome do titular e, quando aplicável, número de contribuinte ou bilhete de identidade
  • Entidade emissora — geralmente os CTT/Correios de Portugal ou o IGCP (Instituto de Gestão da Tesouraria e do Crédito Público)

Passo 2: Verificação junto das Entidades Competentes

Em 2026, o processo de verificação foi significativamente simplificado. O Portal do Aforro (aforro.igcp.pt) permite consultar o estado atual de certificados mediante introdução do número de certificado e do número de identificação fiscal do titular. Esta plataforma foi renovada em 2024 e permite agora consultas por herdeiros devidamente identificados.

Caso o acesso digital não seja possível — frequente em certificados muito antigos com dados inconsistentes — pode dirigir-se pessoalmente a qualquer balcão dos CTT ou ao IGCP em Lisboa, munido dos documentos originais e de identificação.


3. Determinar o Valor Atual: Não Presuma, Verifique

Um dos maiores erros que os detentores de certificados antigos cometem é presumir o valor atual com base no valor nominal inscrito no documento. Esta presunção pode ser enganosa — tanto por defeito como por excesso.

Caso Prático 1: A Surpresa de Maria do Carmo

Em 2025, Maria do Carmo, residente no Porto, herdou da sua mãe um conjunto de certificados da Série B adquiridos em 1987, com um valor nominal total de 500 contos (aproximadamente 2.500 euros). Ao verificar junto do IGCP, descobriu que, devido à capitalização de juros ao longo de décadas e a prémios aplicáveis, o valor real acumulado era de cerca de 8.400 euros — mais de três vezes o valor que esperava. A diferença residia nos prémios de permanência que a sua mãe nunca havia resgatado.

O cálculo do valor atual de um certificado antigo deve contemplar:

  • Capital inicial subscrito
  • Juros capitalizados anualmente ao longo de todos os anos em vigor
  • Prémios de permanência (se aplicáveis à série específica)
  • Eventuais atualizações indexadas à inflação ou a taxas de referência
  • Deduções por eventuais levantamentos parciais realizados

Caso Prático 2: O Engano de José Ferreira

Em contraste, José Ferreira, de Faro, convenceu-se de que os seus certificados da Série D, adquiridos em 2002, teriam um valor significativo em 2026. Após consulta formal, verificou que a série em questão havia atingido o seu prazo máximo de capitalização em 2017 e, desde então, os certificados estavam simplesmente a acumular à taxa de juro mínima de 0,1% ao ano — muito abaixo da inflação. Resultado: perda de poder de compra significativa por inação.

“A transparência na informação sobre o valor real dos certificados é uma obrigação do Estado, mas a iniciativa de verificar tem de partir do titular ou dos seus herdeiros.” — Relatório de Literacia Financeira, CMVM, 2025

4. Gestão em Contexto de Herança

A gestão de certificados em contexto de herança acrescenta uma camada adicional de complexidade legal e administrativa. Em 2026, as regras aplicáveis em Portugal mantêm-se relativamente estáveis face ao quadro estabelecido em anos anteriores, mas com algumas simplificações processuais importantes.

O Processo Sucessório e os Certificados

Os certificados de aforro integram a herança do falecido e devem ser declarados no processo de inventário ou habilitação de herdeiros. Para efeitos práticos, os herdeiros precisam de:

  1. Obter habilitação de herdeiros — documento notarial que comprova a qualidade de herdeiro
  2. Declarar os certificados na relação de bens — para efeitos de Imposto do Selo sobre a herança (quando aplicável)
  3. Apresentar-se junto do IGCP ou CTT com a documentação completa para transferência ou resgate
  4. Aguardar o processo de verificação — tipicamente entre 15 e 45 dias úteis em 2026

Quando Há Múltiplos Herdeiros

A situação complica-se quando existem vários herdeiros. Neste caso, salvo acordo unânime, os certificados não podem ser resgatados parcialmente por um único herdeiro. Todos os legítimos herdeiros devem estar de acordo quanto ao destino dos certificados: resgate total, manutenção em regime de contitularidade, ou transferência para um único herdeiro mediante compensação aos restantes.

Conselho prático: Sempre que possível, chegue a acordo familiar antes de iniciar o processo formal. Desacordos entre herdeiros após o início do processo podem paralisar o resgate por meses ou até anos.


5. Os 3 Principais Desafios e Como os Superar

Desafio 1: Documentação Incompleta ou Deteriorada

Certificados antigos podem estar fisicamente danificados, com números ilegíveis, ou simplesmente extraviados. Este é, provavelmente, o obstáculo mais comum reportado pelos detentores.

Solução: O IGCP mantém registos eletrónicos de todos os certificados emitidos desde a informatização do sistema. Mesmo que o documento físico esteja danificado, é possível identificar o certificado através do nome do titular, data de nascimento e NIF. Em casos de extravio total, é necessário instaurar um processo de substituição de título, que em 2026 pode ser iniciado digitalmente e tem uma duração média de 30 dias.

Desafio 2: Prescrição dos Direitos de Resgate

Existe um prazo legal para reivindicar o resgate de certificados após o seu vencimento. Em Portugal, o prazo de prescrição para certificados de aforro é, em regra, de 20 anos após o vencimento. Contudo, algumas séries mais antigas podem ter prazos diferentes aplicáveis à sua data de emissão.

Solução: Verifique imediatamente o estado do seu certificado. Se estiver próximo do prazo de prescrição, priorize o processo de resgate. Em caso de dúvida, consulte um advogado especializado em direito bancário ou financeiro antes de assumir que os direitos estão prescritos.

Desafio 3: Implicações Fiscais Inesperadas

Muitos herdeiros desconhecem que o resgate de certificados antigos pode gerar obrigações fiscais — nomeadamente em sede de IRS (para os juros acumulados) e eventualmente em sede de Imposto do Selo sobre a herança.

Solução: Consulte um contabilista certificado ou advogado fiscal antes de resgatar. O planeamento prévio pode, em muitos casos, reduzir significativamente a carga fiscal — por exemplo, através de um escalonamento temporal dos resgates ou da utilização de benefícios fiscais aplicáveis.


6. As Suas Opções: Resgatar, Manter ou Transferir

Uma vez clarificado o estado e o valor dos certificados, confronta-se com três grandes decisões estratégicas. Cada uma tem as suas vantagens e desvantagens, e a escolha ideal depende da sua situação pessoal, fiscal e dos objetivos financeiros a longo prazo.

Opção A: Resgate Total

O resgate imediato converte os certificados em liquidez. É a opção mais simples e adequada quando precisa de fundos, quando os certificados atingiram o seu prazo máximo de capitalização, ou quando as condições do mercado tornam mais vantajoso reinvestir noutros instrumentos. Em 2026, o resgate pode ser efetuado presencialmente nos CTT ou, para valores acima de determinado limiar, diretamente no IGCP.

Opção B: Manutenção e Monitorização Ativa

Se os certificados ainda estão em fase de capitalização favorável, pode valer a pena mantê-los até à maturidade. Esta opção exige uma monitorização regular para garantir que não perde os prazos de capitalização ideal. Estabeleça alertas anuais para verificar o estado dos seus certificados.

Opção C: Transferência para Herdeiros ou Terceiros

Em vida, é possível transferir a titularidade dos certificados. Esta pode ser uma estratégia de planeamento sucessório eficaz, permitindo antecipar a transmissão patrimonial de forma ordenada e, em alguns casos, fiscalmente mais eficiente do que a transmissão por herança.


7. Implicações Fiscais em 2026

O enquadramento fiscal dos certificados de aforro em 2026 mantém a estrutura base estabelecida nos anos anteriores, com algumas nuances importantes a considerar.

Os rendimentos de certificados de aforro são tributados como rendimentos de capitais (Categoria E do IRS), sujeitos a uma taxa liberatória de 28% sobre os juros auferidos. Esta retenção é efetuada na fonte aquando do resgate, o que significa que, na prática, o montante que recebe já está líquido de imposto — salvo opção pelo englobamento, que pode ser vantajosa para contribuintes em escalões baixos de rendimento.

Em contexto de herança, os certificados integram a massa hereditária e estão sujeitos a Imposto do Selo à taxa de 10% sobre o valor líquido transmitido, com isenção para cônjuge, descendentes e ascendentes diretos (linha reta). Herdeiros colaterais — irmãos, sobrinhos — não beneficiam desta isenção.

Atenção em 2026: As alterações introduzidas pelo Orçamento do Estado para 2026 clarificaram alguns aspetos relativos ao tratamento fiscal de certificados em situação de contitularidade, nomeadamente a forma como os rendimentos devem ser imputados a cada cotitular para efeitos de retenção na fonte.


8. Comparação Visual: Tempo Médio de Resolução por Situação

⏱ Tempo Médio de Resolução (em dias úteis) — 2026

Resgate simples (titular vivo)
~10 dias
Substituição de título perdido
~30 dias
Resgate por herança (herdeiro único)
~45 dias
Herança com múltiplos herdeiros
~90 dias
Processo com prescrição contestada
+120 dias

Fonte: estimativas baseadas em dados do IGCP e feedback de utilizadores, 2025-2026


9. Tabela Comparativa de Instrumentos de Aforro Público

Característica Série B (Antiga) Série D (Antiga) Certificados Atuais (2026)
Período de emissão típico 1980–1993 1995–2008 2010–presente
Taxa de juro base Fixa, elevada (8–15%) Indexada (Euribor+spread) Variável (Euribor 3m)
Prazo máximo de capitalização 10 anos 10 anos 10 anos
Resgate antecipado permitido Após 6 meses Após 3 meses Após 3 meses
Gestão digital disponível Parcial (consulta) Parcial (consulta) Total (Portal Aforro)

10. Perguntas Frequentes

Posso resgatar um certificado antigo sem o documento físico original?

Sim, é possível. O IGCP mantém registos eletrónicos de todos os certificados emitidos. Em caso de extravio do documento físico, deve dirigir-se ao IGCP ou aos CTT com a sua identificação e o número de contribuinte do titular original. Será necessário instaurar um processo de substituição de título, que em 2026 demora em média 30 dias úteis. Para herdeiros, é adicionalmente necessária a habilitação de herdeiros emitida por notário.

Os meus certificados podem ter prescrito sem que eu saiba?

Esta é uma preocupação legítima. Em Portugal, o prazo de prescrição é de 20 anos a contar da data de vencimento do certificado — ou seja, do momento em que se esgotou o prazo máximo de capitalização previsto nas condições da série. Se adquiriu um certificado da Série B em 1985 com prazo de 10 anos, o seu vencimento foi em 1995 e a prescrição teria ocorrido, em princípio, em 2015. Contudo, se houve interrupção do prazo de prescrição (por exemplo, através de contacto com a entidade emissora), o prazo reinicia. Verifique o estado atual junto do IGCP antes de assumir qualquer conclusão.

Qual é a diferença fiscal entre resgatar como titular original e como herdeiro?

Como titular original, os juros acumulados estão sujeitos a IRS à taxa liberatória de 28%, retida na fonte no momento do resgate. Como herdeiro, acresce ao IRS sobre os juros a possibilidade de Imposto do Selo de 10% sobre o valor do certificado integrado na herança — com isenção para cônjuge e herdeiros em linha reta (filhos, pais). Adicionalmente, o valor do certificado deve constar da Declaração de Imposto do Selo da herança. Recomenda-se sempre a consulta a um profissional fiscal para otimizar a situação individual.


O Seu Roteiro de Ação: Da Gaveta ao Controlo Financeiro

Em 2026, gerir certificados antigos das Séries B e D não é apenas uma questão burocrática — é uma oportunidade real de recuperar valor financeiro que pode estar adormecido há décadas. O mundo dos ativos financeiros herdados está a ganhar atenção crescente no contexto do planeamento patrimonial moderno, e os instrumentos digitais disponíveis nunca foram tão acessíveis.

Aqui está o seu plano de ação em 5 passos, implementável a partir de hoje:

  1. Inventarie todos os certificados que detém ou herdou — registe número, série, data de emissão e valor nominal de cada um numa folha de cálculo simples
  2. Verifique o estado atual de cada certificado em aforro.igcp.pt ou presencialmente nos CTT — confirme se estão ativos, vencidos ou prescritos
  3. Calcule o valor real acumulado com base nas condições específicas da série — solicite simulação formal ao IGCP se necessário
  4. Consulte um especialista fiscal antes de tomar qualquer decisão de resgate — o custo desta consulta é tipicamente recuperado na otimização fiscal obtida
  5. Execute a sua decisão estratégica — resgate, manutenção ou transferência — com toda a documentação necessária reunida e organizada

Os certificados de aforro foram, durante décadas, um dos instrumentos preferidos dos portugueses para preservar e fazer crescer as suas poupanças. Herdá-los ou detê-los é uma responsabilidade, mas também uma oportunidade. A diferença entre deixá-los numa gaveta e geri-los ativamente pode representar milhares de euros de diferença no seu balanço familiar.

A sua próxima ação começa agora: abra aquela gaveta, recolha os documentos, e dê o primeiro passo. O valor que encontrar pode surpreendê-lo — e o controlo que ganhará sobre o seu património certamente não o vai decepcionar. Que certificados esquecidos pode ainda ter por descobrir?

Certificados antigos herdados

Artigo revisado por Oliver Michalaki, Investimentos em Hotelaria e Gestão de Ativos | Hotéis Boutique e Resorts, em Junho 1, 2026

Autor

  • Desenvolvo estratégias de investimento sustentável para fundos de pensões e seguradoras portuguesas, com foco na integração de critérios ESG (Ambientais, Sociais e de Governança). A minha experiência inclui a estruturação de green bonds, social bonds e a criação de fundos temáticos dedicados à transição energética. Implementei o primeiro sistema de due diligence ESG num grande banco de investimento português. Atualmente, lidero uma iniciativa para mapear e financiar projetos de conservação da biodiversidade na região do Mediterrâneo, combinando capital público e privado.